Reitoria vs Renova: Entenda as novas cotas
No dia 12 de agosto de 2026, o Conselho Universitário da UDESC aprovou a Nova Política de Cotas por 39 a 37, com 15 ausentes. O Renova pediu consulta aos alunos, pela Helios Voting. Os conselheiros rejeitaram. Sem consulta, votamos contra — como havíamos dito.
Dois dias depois, o Instagram oficial da universidade publicou um carrossel “explicativo”. A frase de abertura é esta: tem muita desinformação por aí. A pergunta, no fundo, é se o Renova mente.
Não mente. Muda o nome. Cota vira vaga suplementar. Preso vira pessoa em privação de liberdade. MST vira pessoas do campo. O restante deste texto é o que a nota da Reitoria não descreve — e o que o próprio post admite no parágrafo seguinte ao “não”.
Vaga extra, a critério do curso, paga com orçamento público e dirigida a um grupo específico, continua sendo política de reserva. Chame como quiser. Para o Renova, não difere de uma cota.
O que foi aprovado
O relato é da professora Cláudia Mortari, diretora-geral da FAED. Processo CONSUNI 14.649/2024. Na mesma sessão, o Conselho acolheu as DVS do conselheiro André Bittencourt Leal e do Reitor José Fernando Fragalli: saiu a vaga suplementar para pessoas em privação de liberdade; a renda das cotas passou a 1,5 salário mínimo; as suplementares na pós-graduação ficaram facultativas, de até 20%.
O que passou, com as DVS já incorporadas:
- GraduaçãoAs cotas regulares partem de 30%. Somadas às três vagas suplementares por curso, a reserva chega a cerca de 53% numa turma típica.
- Pós-graduaçãoDe 0% para 30%. Se o programa abrir os 20% suplementares facultativos, o teto fica em torno de 42%.
- ConcursosDe 5% para 30% nas contratações da universidade.
As vagas suplementares da graduação, depois da DVS do Reitor, ficaram para três grupos: pessoas trans, povos do campo e quem solicita refúgio ou visto humanitário. Preso saiu do texto. Não saiu do voto — isso vai mais abaixo.
“Não é cota. É vaga suplementar.”
A nota da Reitoria insiste na distinção. Cota, diz o post, reserva uma fatia das vagas que já existem. Vaga suplementar seria extra, facultativa, a critério de cada curso, “fora” do vestibular.
A distinção serve para não ter de debater o mérito. Bolsa, restaurante universitário, sala e professor saem do mesmo fundo. O curso escolhe o grupo. O Estado paga. Isso é política de reserva com outro nome.
O próprio post admite o que o título nega
O carrossel oficial pergunta, slide a slide, se “vai ter cota” para este ou aquele grupo. A primeira palavra da resposta é não. A segunda frase descreve a vaga extra.
No slide do refugiado, a Reitoria escreve que a UDESC poderá ofertar vagas extras para quem solicita refúgio ou visto humanitário. Dizem não e, no mesmo slide, descrevem a cota. O dinheiro sai do mesmo fundo. Tem sim.
No slide das pessoas trans, o padrão se repete: “não” no título; no parágrafo, cursos de graduação e pós podem abrir vagas extras, facultativas, a critério de cada programa. Bolsa, restaurante, sala e professor não mudam de caixa porque o nome mudou.
Preso: saiu do texto, ficou no voto
A nota diz que não haverá cota para preso, e que a proposta “não entrou na resolução aprovada”. O texto, depois da DVS do Reitor José Fernando Fragalli, de fato não traz essa vaga. O que a nota não conta é o caminho.
Pelo regimento do Conselho, votou-se primeiro a proposta completa. Quem votou a favor, votou a favor de vaga para preso. Só depois veio a segunda votação, a DVS, que retirou o ponto. Correram o risco de ele permanecer. Aceitaram o risco. Os nomes que o Renova publicou votaram a favor da proposta completa.
O NEAB, financiado pela Reitoria, reclamou do termo presidiários e pediu pessoas em privação de liberdade. A nota oficial usa o mesmo termo.
“Pessoas do campo”
A nota afirma que não há reserva para membros do MST, e que a vaga extra seria para pessoas do campo — “o pequeno agricultor em comunidade rural longe da cidade”.
Quem busca “pessoas do campo” encontra, de saída, populações quilombolas. Quilombola já tinha cota específica na proposta. O recorte que sobra é o do MST. O mesmo recorte já apareceu em universidades como UFPE, UFPA, UFPR, UFPel e UFG.
No plenário do CONSUNI, em 12 de agosto, o que se via era boné MST, camiseta, cartaz de assentamento. Nenhum agricultor catarinense no microfone. Nenhum sendo citado.
Em junho o compromisso era público: se a Reitoria consultasse os alunos, votaríamos com a maioria; se recusasse, votaríamos contra, pela falta de debate. A consulta caiu no Conselho. Sem ela, votamos contra. O placar foi 39 a 37.
Na denúncia estão o placar por centro, a votação nominal, o resumo comparativo e a redação da resolução. Cima é negativo: CEART, FAED e Reitoria no topo, a 100% a favor; ESAG na base, 0 a 8.
